não ouvi metade do que ela disse.
bullshit, é claro que eu ouvi, não consigo fingir desprezo. fiquei sentada na beirada da cama, com os braços apoiados nas coxas, pernas um pouco afastadas, e aquele olhar babaca de humildade, tÃpico olhar "vá-em-frente-me-chicoteie-mas-faça-isso-rápido-porque-daqui-a-pouco-vai-começar-a-passar-o-programa-da-semana-do-tubarão-no-discovery-channel", olhando a água lentamente vazar do cano da pia do meu banheiro, que era a coisa mais próxima na qual eu poderia fixar o olhar pra não precisar encarar a patroa. à medida que ela foi falando, a vontade de chorar foi aumentando, a visão ficando embaçada, não, não, controle-se, não seja maricas, não se entregue assim, meninas não choram, você é um homem ou um saco de batatas? eu até tive vontade de dar um abraço nela, só que entre nós existia um espaço muito maior do que os 50cm de distância entre a minha cama e a poltrona onde ela estava; existia uma verdadeira famÃlia de patinhos atravessando a faixa de pedestre, havia o meu orgulho atrapalhando o trânsito. grande merda de orgulho. eita porra, esqueci a torneira aberta, eu tomei banho hoje, acho que já. ela acabou de falar o que queria, e eu fiquei quieta, engasgada, cansada, me sentindo um cocô de pombo por não ter falado nada. me veio com aquelas manhas de amor incondicional de mãe que tanto me deixam irritadÃssima, preferi não ceder. já estraguei tudo mesmo.

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